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Caminhada Solitária

Autoconhecimento e superação pessoal nas mesas de poker
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O poker surgiu em minha vida em meados de 2011 com o boom do poker online no Brasil. Sempre foi uma caminhada solitária, e não apenas pela natureza individual do esporte, mas principalmente pelas dificuldades em fazer reconhecer a prática do poker como esporte. Bem distante de laudos técnicos que comprovam a natureza científica deste esporte, que entre outras coisas é disciplina acadêmica em grandes universidades, ainda é muito difícil, principalmente para uma mulher, trilhar um caminho tranquilo e socialmente sustentável nas mesas presenciais.


Uma coisa é o respeito inegável que os outros players direcionam a nós mulheres quando sentamos com fichas à frente. Outra, bem diferente, é o olhar torto da sociedade, quando entre amigos ou mesmo familiares, surge a conversa sobre o esporte. Em outros países, onde o poker é reconhecido há mais tempo e a legislação já está consolidada, talvez isso seja uma grande bobagem. Mas aqui no Brasil, onde grande parte da sociedade ainda tem sua opinião formada por uma ou duas redes de televisão, sendo a maior parte da população carente da vivência acadêmica dos bancos de universidades e o preconceito com tudo aquilo que foge do padrão altíssimo, é algo bem complicado.


De 2011 a 2014 o meu crescimento no poker foi satisfatório (no meu ponto de vista), levando-se em conta que sempre estudei sozinha, fazendo meu próprio calendário de estudo, análise de mãos, montagem da grade de torneios e definição de metas no cash games. Tive a oportunidade de fazer alguns bons resultados em MTTs, mas sempre fui muito realista com meus números, principalmente por em razão pessoal nunca ter conseguido empreender um grande volume de jogo e como analista profissional, reconhecer visivelmente vários lakes, o que venho pouco a pouco filtrando. Muito mais que bater limites e tornar-me uma jogadora campeã consagrada, estive sempre focada no entendimento da dinâmica do jogo, as variáveis que afetam o rendimento nas mesas, indo muito além do range ou nível de pensamento dos adversários.


Tendo tido uma passagem na educação física anos atrás, sempre olhei o poker como olhava para o futebol por exemplo, compreendendo desde sua história, ao estereótipo real (e não o superficial) dos players e tentando me contextualizar dentro desse todo, o que culminou com o desenvolvimento de um “modelo de gestão de resultados baseado em diretrizes de autossuficiência competitiva”, tema interessante para outros posts.


Foi assim que me constituí uma atleta, mesmo jogando em níveis baratos e tendo um volume de jogo muito baixo comparado ao de grandes jogadores. Mas justamente em razão da grande pressão social que vivenciei em meus primeiros anos (indo desde a visão preconceituosa de amigos, amores, colegas de trabalho) cada torneio disputado, mão estudada  e momento vivido dentro deste esporte foram tratados de forma especial, com registros técnicos, autocrítica e um planejamento de atividades que me permitiram disputar em 2016 etapas do circuito live na capital em que vivo.


Fui muito modesta na escolha do evento que disputaria, optando pelo “ladies only” que me daria não uma grande premiação ou grandes troféus em caso de vitória, mas passaporte para a seleção de poker do estado e que significaria um grande marco, além de trazer o tão desejado respeito por aqueles que me cercavam. Foi sem dúvida uma grande decisão, que fora plantada meses antes com a realização de um curso de poker dealer, que entre outras coisas deu-me algum contato e amizade com a turma local e “traquejo” com a dinâmica da mesa, porque a realidade é que eu sequer sabia segurar um baralho quando sentei-me a primeira vez em uma mesa de poker ao vivo. Eu era/sou aquilo que outros players mais experientes chamam de “clicadora de botões”, numa referência pejorativa aos jogadores de poker online sem expressividade e meio malucos.


Ciente das regras e mais solta com o carteado, vi meu par de 22 trincar e eliminar de uma mesa ainda no final de 2015 a jogadora que era a representante feminina da seleção estadual que eu pleiteava (dando-me confiança para começar a temporada no ano seguinte)  e minha estratégia mais tight de jogo ser insuficiente para trazer o 1º lugar que de fato queria em 2016, uma vez que apesar de enfrentar somente meninas, não eram moças tolas. Eram esposas, poker dealers profissionais e jogadoras em fase inicial de carreira como eu, mas com algum assessoramento técnico, o que fez dessa temporada uma excelente oportunidade de aprendizado e crescimento. Mas sempre solitária.


Minha própria relação com as moças era relativamente distante, uma vez que apesar de estar ali como uma “novata” e ser relativamente simpática, jogava com o buy-in cavalado por investidores e tinha o peso (emocional) de representar um time que iniciava seu trabalho ali, nas mesas do ladies, entre outras coisas contribuindo para a minha superação de maus hábitos, como vícios que ainda possuía (na época eu fumava) e na organização de minha vida pessoal, bastante atribulada na época. Mas a distância não impediu a conquista de resultados interessantes como uma mesa final em torneio de porte regional, onde moças de outros times com maior capital para investimento e experiência técnica não chegaram para a foto e a conquista de boas amizades.


Também foi possível, mesmo com baixíssimo volume de jogo e uma condição emocional tecnicamente abalada, enfrentar jogadores semi-profissionais e acostumados aos grandes jogos mantendo a pressão e o meu ritmo de jogo com muita personalidade e respeito, roubando blinds no ritmo planejado e blefando spots sem medo. Fizeram-me levantar da mesa? Sim, era natural que o fizessem por serem tecnicamente melhores, mas o fold no tempo certo e puxar all-in com 2 pares no turn vendo o vilão experiente pagar com um flush draw, após ser blefado mãos anteriores, e conseguir o out no river não me deixou triste. Ao contrário, fez-me perceber que estou no caminho certo, por mais que ainda precise “comer muito feijão” para chegar ao nível de grandes mesas. Fui sorrindo para o caixa e voltei para o jogo já com nova estratégia em razão do nível de blinds do torneio.


Mas esses resultados só ampliaram minha visão de como é solitário este esporte e esta caminhada rumo às grandes mesas. Os amigos e amores, em geral, só verão a cravada ou a grande premiação, passando batido todas as vezes e que serão maioria, em que os torneios foram/seriam bem jogados mas levantamos/levantaríamos da mesa mais cedo. Isso me deixou um tempo afastada e desgostosa, não com o poker, mas com a “torcida”. E sempre com um misto de sentimentos, ora dando razão às críticas populares, pois realmente há jogadores nas rooms presenciais que consomem álcool enquanto jogam, fumam nos intervalos e disputam limites muito acima da capacidade de suas bancas, mas também me aborrecendo com tais críticos, pois nem todos que sentam-se em uma mesa querem ser atletas profissionais, havendo uma quantidade bem significativa de players que só querem se divertir, fazer amizades e quem sabe, tentar ganhar algum trocado, não tendo compromisso com essa imagem de “esporte saudável”.


Agora, já em meados de 2017, e bem mais amadurecida sobre o que eu realmente quero nas mesas e sobre onde estou dentro do field local e internacional, senti-me confortável não apenas para voltar a treinar, mas para compartilhar estas vivências – solitárias – ciente que essa é uma realidade para a maioria, visto que poucos são Akkaris, Helmuts e Dwans. A maioria esmagadora dos players possuem baixo volume, pouca estrutura para treinar e quase nenhum comprometimento com a melhoria contínua, algo fundamental para manter-se competitivo neste esporte.


Uma vez vi um dos jogadores que mais admiro – o brasileiro Felipe Mojave – dizer que não podemos meter os pés pelas mãos, pois o poker sempre estará aí para quem quiser jogá-lo. Bem, quase 1 ano se passou desde que estive pela última vez numa mesa oficial presencial e é verdade – o poker continua aí. Fico feliz por não ter metido os pés pelas mãos, estar socialmente com minha posição definida entre os players locais e entre meus amigos/amores, e principalmente, consciente que essa minha volta às mesas se dá com um mindset completamente diferente do início em 2011 ou mesmo 2015, sem a menor dúvida que muito mais maduro e competitivo. Fico feliz por ter cumprido uma das primeiras recomendações que obtive quando comecei a jogar poker, ainda lá atrás em 2011, de nunca sentar-se às mesas quando triste ou aborrecido e foi bem o que fiz esse tempo que estive ausente do jogo.
Já não há a ansiedade por caminhar sozinha, se ela ainda existe é por visualizar novos bons resultados nas mesas, onde espero encontrar meus melhores adversários em breve.

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